terça-feira, 18 de setembro de 2018

Igreja: Crescimento e Missão – Crescer para dentro - Rui Sabino

A igreja que Jesus edificou (Mateus 16:18) só poderá cumprir a sua missão (Mateus 28:18-20) se for verdadeiramente corpo de Cristo. No entanto, segundo Scott Peck, “a igreja deve formar-se em comunidade para depois servir como corpo de Cristo”. Vemos uma comunidade a funcionar naquele grupo de discípulos em Jerusalém. Logo que Jesus ascendeu aos céus, e depois da descida do Espírito Santo, a igreja era uma verdadeira comunidade. “Eles tinham tudo em comum”, e nesta comunidade compreendemos na perfeição o que é ser corpo de Cristo. Aqueles cristãos viviam unidos, tinham o mesmo desejo de adorar, de servir e de cumprir em tudo a missão que haviam recebido. Aquela comunidade, aquele corpo vivo, era em tudo dirigido pelo Senhor Jesus. Juntos celebravam a ordenança da ceia, juntos oravam, juntos liam as Escrituras e ouviam o ensino dos apóstolos, juntos privavam na intimidade do lar, juntos se edificavam, protegiam e juntos testemunhavam à comunidade que os admirava e que por eles nutriam simpatia (Atos 2:72-74). Havia entre eles uma comunhão interdependente, em que todos eram importantes na vida de todos e em que se edificavam uns aos outros. Naquela comunidade havia um compromisso forte de serem “um” no Senhor. Não vemos na comunidade de discípulos que Jesus fundou “freelancers espirituais”. A fé era vivida em comunidade e cumplicidade mútua, até mesmo os apóstolos e os líderes mais sonantes estavam ao serviço de todo o corpo e juntamente com a restante da igreja colaboravam para edificarem toda a comunidade e cumprirem a missão do Senhor Jesus ressurreto.

Naquela primeira igreja, vemos o protótipo dos ensinamentos de Jesus. Era uma comunidade que soube receber e integrar pessoas de todos os povos e de todos os grupos sociais. Soube ultrapassar os seus preconceitos, as suas incompreensões religiosas e culturais, fazendo dos novos membros da igreja parte do Corpo de Cristo (Atos 15). Mas o amor e a aceitação a judeus e gentios foi ensinado pelo Senhor Jesus, que não fez aceção de pessoas durante o seu ministério. Jesus aceitou e abençoou todas as pessoas que o queriam seguir, quer fosse uma mulher samaritana, um possesso gadareno, um centurião romano, um cobrador de impostos corrupto, uma pecadora apanhada em adultério, um crucificado ou uma mãe sirofenícia clamando pela libertação da sua filha. Ricos, pobres, judeus, gentios, pessoas relevantes e pessoas marginalizadas, todos foram aceites e alvos da graça e misericórdia de Jesus. Jesus preocupou-se com o vinho que faltou no casamento em Caná da Galileia, com uma menina de 12 anos que estava à morte, bem como com uma multidão que estava sem comer.

A igreja foi ensinada por Jesus a amar: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35) e o mundo testemunhou e registou o grande amor da Igreja de Cristo, pois diziam os pagãos: “vede como eles se amam”.

A graça e a misericórdia de Jesus torna a igreja numa comunidade terapêutica. Os relacionamentos interpessoais fraternos experimentados no seio da igreja, e marcados pelo carácter de Cristo, aperfeiçoam, santificam e regeneram a vida das pessoas em todas as suas dimensões.

Quando o modelo de comunhão da Trindade é experimentado na comunidade da igreja permite que cada cristão experimente o poder restaurador do Evangelho. Como disse Larry Crabb, “o Evangelho religa pessoas a Deus e às pessoas”.

A vontade de Jesus expressa na sua oração “sacerdotal”, em João 17, era que a sua igreja pudesse viver unida, como Ele era unido com o Pai. Na comunidade da igreja, as pessoas são alimentadas espiritualmente, são ensinadas na “boa, santa e perfeita vontade de Deus” e isso protege-as e abençoa-as. A igreja é uma comunidade única, pois nenhuma instituição no mundo pode ter a capacidade terapêutica, conciliadora, edificante, protetora e altruísta que a igreja tem, pois ela está firmada em Jesus. A igreja é uma instituição que nasceu no coração de Deus e é sustentada sobrenaturalmente pelo Senhor, pelo que jamais o inferno prevalecerá contra ela.

É importante valorizar a igreja. Precisamos de ter comunidades locais saudáveis que experimentem relacionamentos fraternos moldados pelo amor e cuidado de Jesus.

A capacidade de Jesus em aceitar pessoas, amá-las e corrigi-las, rumo à santificação, libertação e ao gozo da vida abundante deve ser experimentado, valorizado e reconhecido como uma expressão de adoração ensinada e exigida por Jesus. Portanto, uma igreja não pode ser apenas um grupo de cristãos que tem em comum um templo, um culto semanal e uma perspetiva teológica.

A Igreja de Cristo continua a ser a comunidade comprometida com o anúncio das Boas Novas da Salvação e em ser corpo de Cristo, família de Deus. É onde as pessoas têm prioridade e encontram a compaixão que Jesus nos ensinou a ministrar e viver focados, para honra e glória do Senhor.

Queremos ser uma comunidade que, como corpo de Cristo, viva em graça, misericórdia e compaixão, disposta a acolher, integrar e a cuidar uns dos outros. 

Rui Sabino 

Compaixão e Generosidade - António Bento

Cinco refeições, duas curas e muita provisão, assim Jesus nos conduz com um guião natural, mas que se move sempre à volta do sobrenatural. Leva-nos primeiro para uma boda (Jo 2.1-12), onde se acaba a bebida principal. Aflita, a mãe de Jesus, o intimou. Ele, imbuído de generosidade, ordena que venha a água da purificação e a transforma num vinho passível do melhor prémio. A sua presença compassiva transfigurou a cena, transformando o que antes era inadequado em algo suficiente para prover mesmo as necessidades dos mais exigentes. Liberdade e alegria ocupavam agora o lugar do que antes era consternação.

Em duas mesas improvisadas Jesus alimenta duas multidões esfomeadas com um cardápio que nada de especial aparentava, pães e peixes, mas na verdade algo de tremendo estava por trás de tão humilde refeição. Na primeira vez, Jesus embora retirado num deserto perto de Betsaida (Lc 9.7-22), entre judeus, não conseguiu deixar de receber a multidão que sofregamente o buscava, e tomado de compaixão, falava-lhes do Seu Reino e a todos curava sem discriminação. Mas quando chegou a hora em que a fome apertou, a humanidade desceu sobre o coração dos seus discípulos, que queriam que despedisse a multidão, para que procurassem a sua própria provisão. Mas Jesus, movido de compaixão, ao invés, decide alimentar a multidão. Enfatizando a inaptidão dos discípulos para providenciar fosse o que fosse, revelou que Ele mesmo é o Deus de toda a provisão, multiplicando pães e peixes, fornecendo o primeiro maná provindo do céu desde a longínqua travessia do deserto, e antecipando o banquete messiânico prometido. E assim se revelou sobrenaturalmente como o Deus de toda a compaixão e provisão. Mas drama dos dramas, nem os seus discípulos o parecem ter entendido. 

Pouco depois, noutra mesa inventada, num monte com vista para o mar da Galileia (Mt 15.29-39), desta vez principalmente entre gentios, o argumento parece repetir-se, como se de um replay se tratasse. Incrédulos os discípulos voltaram a perguntar onde iriam arranjar alimentos para tão grande multidão e, compassivamente, uma outra vez Jesus multiplica o que era pouco, para que os muitos fossem amorosamente saciados. Esta repetição não é, contudo, inócua. Se a alimentação dos cinco mil, em território judaico, era um vislumbre do banquete messiânico, o banquete dos quatro mil, em território gentílico, garantia que os gentios também partilhariam da bênção suprema prometida ao povo de Israel.

À mesa de um importante fariseu (Lc 14.1-14), perante o escrutínio rigoroso da “casta perfeita”, Jesus não se deixou intimidar e, impelido por profunda compaixão, atropelou as leis do sábado para atender as aflições de um hidrópico. Cura era o que ele precisava e cura foi o que ele recebeu. Às regras farisaicas, vazias de amor, Jesus sobrenaturalmente respondeu, mostrando que para Deus o homem vale mais do que o sábado. E num golpe de génio, aproveita a ocasião para admoestar rigorosamente os convidados a que quando convidassem pessoas para jantar em casa, não convidassem os amigos, ou irmãos, ou parentes, ou os vizinhos ricos, para que não fosse ocorrer que recebem a recompensa da retribuição, mas ao invés, que convidassem os pobres, cegos e aleijados, que não poderiam jamais retribuir. A recompensa, essa viria na ressurreição. E mostra, pois, que a sua mesa está fundamentada numa ética de graça, em contraposição com uma lógica de reciprocidade.

Na última mesa, em casa de simão o “Leproso”, algo de surpreendente acontece, aquele que era o Senhor de toda a compaixão e generosidade é aqui o alvo da compaixão e generosidade de uma humilde mulher (Mt 26.6-13). Esta irrompe pela casa e, sem qualquer convite, derrama sobre a cabeça de Jesus um perfume de muito valor, pressagiando a sua morte como Messias prometido. As críticas, dos próprios discípulos, vieram em coro, lamentando o tremendo desperdício, obrigando Jesus a salientar o valor inestimável daquele ato de profunda caridade e a aproveitar para lhes expor que sempre devem ter como foco a assistência amorosa e compassiva para com todos os necessitados.

À mesa, Jesus nos mostra que, tal como Ele, devemos ter compaixão e generosidade para com os perdidos que nos rodeiam. Ele nos instiga a convidá-los para a mesa, onde Ele pode trazer cura e provisão para as suas vidas exauridas. Ele é o Messias da mesa aberta, que nos convida a ser a sua extensão no mundo, amando de forma prática os descrentes à nossa volta, materializando fisicamente a alegria messiânica que quer encher a suas existências do gozo e paz de Deus. 

António Bento

O Reino de Deus nas Parábolas de Jesus – O Grande Banquete - Alberto Carneiro

A parábola do grande banquete (Lucas 14:15-24) é um texto merecedor de muita atenção pela forma como Jesus expõe a incredulidade dos judeus e a constatação da sua “substituição” por elementos de todos os outros povos. É um ensino duro para as pessoas de raça judaica, que se considerando o povo escolhido, não aceitam de bom grado que um dos seus tenha ensinado que eles serão preteridos a favor de outros que não têm a mesma conotação de “Povo Escolhido”.

A história é simples e conta-se em poucas palavras. Um homem (certamente rico) convida os seus conterrâneos para um grande banquete. Quando os servos os vão chamar para a festa, uns de uma maneira e outros de outra, recusam estar presentes. Todos tinham outros afazeres a que davam prioridade. Perante tal atitude, e porque o banquete estava preparado e a despesa estava feita, o senhor resolver convidar tudo quanto era pobre, moribundo, desprezado, pessoa sem valor social, desprotegido. Fosse qual fosse a sua condição, devia ser forçado a entrar.

Quando o povo judeu recusou a Jesus, os seus ensinos, as suas práticas, a sua conduta e ministério, o povo colocou-se na posição dos primeiros descritos nesta parábola. Por uma razão ou por outra, desprezaram o convite para o banquete do Reino. Tinham outros interesses, outras prioridades, outros afazeres mais urgentes do que dar valor e importância à presença do Filho de DEUS e à Sua palavra. João vai caracterizar muito bem esta postura em João 1:11[1] e condená-la de forma clara. O povo judeu continuou na sua religiosidade, na sua forma de sociedade, na sua lei vigente que era deturpada e não beneficiava as pessoas, mas apenas servia para cumprir ritos religiosos e nada mais.

Jesus chora esta atitude[2] lamentando a incredulidade do povo e a falta de compreensão das escrituras que testemunhavam dele, do seu ministério e obra salvífica; mas os seus não o receberam e desprezando-O, o mataram.

Existem então os outros, os que foram tocados pela graça de DEUS; não o merecendo, foram chamados à mesa do Rei, para estar com Ele e celebrar as bodas do Cordeiro, fazendo parte da Sua Igreja, a Noiva de Cristo, que embora constituída por pessoas de várias origens, raças e povos, línguas e nações, se congrega para ser o Povo de DEUS, salvo para gozar a eternidade com Ele, na Sua glória, usufruindo da Sua presença constante, recebendo benefícios imerecidos, mas dados de forma gratuita e só possível pela bondade e misericórdia do Senhor.

O amor imerecido que DEUS dá faz toda a diferença na vida daqueles que estão à mesa com Ele. A forma como gozaremos a Sua presença no futuro é algo inimaginável para nós hoje. A Sua grandeza incomensurável será revelada aos nossos olhos num futuro próximo, futuro risonho de esperança e felicidade, porque fazemos parte da família de DEUS e somos herdeiros da Sua bondade e misericórdia. Não a rejeitemos nem menosprezemos porque ela é de grande valor. 

Alberto Carneiro



[1] “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”.
[2] Lucas 19:41-43 e Mateus 23:37-39.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Perfeitos em Unidade: o alvo da parceria nas missões - Carlos Martinez

Anos atrás, ninguém acreditaria na possibilidade de pertencer a uma igreja «virtualmente». Hoje, isso e possível, em parte, pelas redes sociais, mas principalmente devido ao crescimento do individualismo dentro das igrejas. Com o cartaz da liberdade, os individualistas alegam que não precisam do compromisso com uma igreja local, porque podem pertencer a muitas ao mesmo tempo. O autor Eugene Peterson coloca na boca dos individualistas de igreja a seguinte confissão: “Senhor, tenho assumido a mentalidade de um consumidor. Saio à procura de religião como quem sai para comprar mantimento revirando as prateleiras (as igrejas!) para encontrar o que combina com o meu gosto. Perdoa-me!”. Isto também se vê no campo das missões. Cada vez mais aparecem missionários com «complexos de heróis», achando-se com habilidades e recursos suficientes para desenvolver projectos missionários sozinhos, sem o apoio e controle de igreja nenhuma. Também isto é uma realidade nas organizações missionárias que não têm ligação qualquer com igrejas, mas que reclamam para si um tratamento igualitário com aquelas.

O individualismo consiste no pensamento e na acção independentes, sem depender dos outros ou sem se sujeitar às normas gerais. Os individualistas procuram satisfazer os seus próprios objetivos com autossuficiência e independência, opondo-se às intervenções externas nas suas opções pessoais. Por isso, estão contra a autoridade das instituições sobre a sua liberdade individual. Uma característica que ressalta nos individualistas e o egoísmo assim como a falta de cooperação com outros.

Em várias ocasiões, os discípulos de Jesus mostraram um espírito de egoísmo, competitividade e desunião. Ainda precisavam experimentar o «estar em Cristo». Jesus, na oração de João 17 define os alicerces do futuro trabalho missionário dos seus discípulos. Eles tinham que chegar a ser «perfeitos em unidade» (v. 23). Jesus ora para que eles possam ser levados à plena unidade, compartilhando esplendidamente tanto da unidade de propósito quanto da riqueza do amor que vincula o Pai ao Filho. Quando Deus habita no Filho, e ele (através do Espírito) mora naqueles que confiaram nele, então, naturalmente, esses crentes passam a compartilhar todas as riquezas que existem em Cristo: perdão, justiça, amor, alegria, conhecimento, sabedoria, etc.

A unidade dos discípulos, à medida que se aproxima da perfeição, que é seu objetivo, serve para convencer muitos no mundo não só de que Cristo é, de facto, o supremo «locus» da revelação divina como os cristãos reivindicam (que tu me enviaste), mas também de que os próprios cristãos foram envolvidos no amor do Pai pelo Filho, seguros, contentes e plenos porque são amados pelo próprio Todo-Poderoso, com o mesmo amor que ele reserva a seu Filho. Que apelo evangelístico mais constrangedor e irresistível!

Carlos Martinez

O Missionário Etíope - Rui Ribeiro

Hoje vamos olhar para Atos 8, nos versículos 26-40 que relatam como Filipe evangelizou o eunuco Etíope.

O versículo 26 é maravilhoso: o Anjo do Senhor falou a Filipe e disse-lhe para onde Deus queria que ele fosse, reparemos que não lhe diz para o que vai, apenas, “levanta-te e vai para o caminho que leva a Gaza do deserto”. O versículo 27 é directo: Filipe obedeceu. Filipe já sabia que quando Deus fala, é para obedecer, e pelo caminho ele iria perceber, ou Deus lhe falaria algo mais quando lá chegasse. Temos muito a aprender com estes dois versículos, para a nossa vida ministerial.

Quando Filipe viu o Etíope, o Espírito falou-lhe (v29) e disse para que se juntasse ao carro. Deus nem ajudou a abrandar o carro para que Filipe entrasse, Filipe teve que correr para que de perto pudesse ouvir o eunuco a ler a passagem de Isaías 53:1-12. A partir daí, Filipe já sabia o que fazer: partilhar o Evangelho com este homem, fazendo a ponte entre Isaías e Jesus Cristo (v35). O Etíope maravilhado pergunta o que lhe impede de ser baptizado nas águas mais próximas, Filipe responde-lhe (v37): “É-te lícito, se crês de todo o coração”. O Etíope confirma crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e Filipe baptiza-o.

Se isto fosse hoje talvez o “Pr. Filipe” o levasse para a Igreja de Jerusalém e o integrasse numa classe de preparação para o baptismo e com sorte, talvez 3 ou 4 meses depois, o eunuco pudesse ser baptizado. Com isto, não digo que as nossas tradições não tenham a sua razão de ser, porque têm, mas temos que ter em atenção o texto bíblico, ou arriscamo-nos a colocar a tradição à frente da Palavra, como outras denominações que tanto criticamos.

Depois do Baptismo, Filipe é arrebatado pelo Espírito (v39) para outro lugar, que adiciona ao episódio com contornos meio-bizarros, meio-cómicos, que Lucas está a narrar. Imaginemos aquele Eunuco a abrir os olhos depois de ser baptizado e não ver Filipe em lado nenhum.

O texto bíblico diz-nos que o eunuco seguiu a sua viagem, cheio de alegria pelo que acabara de acontecer, e Filipe foi encontrado a pregar o Evangelho nas cidades de Azoto até Cesareia.

A tradição diz-nos que aquele eunuco Etíope foi um grande evangelista na Etiópia, não conseguindo conter a alegria de conhecer Jesus Cristo como Senhor e Salvador apenas para si mesmo.

Neste exemplo vemos como Deus pode ser muito específico numa pequena missão que Ele tem para alguém, usando-o apenas para o propósito muito específico que Ele tem, mas como isso pode impactar toda uma região ou até mesmo todo um país.

Rui Ribeiro

A Unção de Jesus em Betânia - Inês Gandaio

O texto que pretendo refletir neste post encontra-se no Evangelho segundo Marcos, capítulo 14, versículos 3 a 9. No capítulo anterior, Jesus profere o chamado “sermão profético”, em que relata a destruição do Templo de Jerusalém, as futuras perseguições que vão assolar a vida dos discípulos e a Sua Segunda Vinda.

O texto inicia-se com a referência a uma cidade, Betânia. Ela estava situada a cerca de 3 kms de Jerusalém e era um lugar onde Jesus, por várias vezes, se retirava para estar na casa dos seus amigos Lázaro, Marta e Maria. Nesta ocasião Jesus foi convidado para um banquete na casa de Simão, o leproso.

A casa estava cheia, Jesus, o anfitrião e os outros convidados, estavam a disfrutar de uma bela refeição quando entra uma mulher. Segundo Coleman, as mulheres não se sentavam na mesma mesa dos homens. Elas entrariam e serviriam, e só no final é que fariam a sua refeição. Esta mulher entra na sala, não profere uma única palavra, não vem servir ninguém, nem dar algum recado, ela quebra a barreira social movida pelo amor a Jesus e age. Ela traz um vaso de alabastro que continha perfume de nardo puro. O nardo era uma planta rara que crescia na Índia, o perfume era feito a partir da extração da planta, transformando-o assim no perfume mais caro do mundo. Marcos acrescenta que este perfume era de nardo puro, ou seja, não era uma falsificação, não havia mistura no nardo. A oferta da mulher era preciosíssima, ela valeria cerca de 300 denários que corresponderia a mais de um ano de salário, naquela época. Ela quebra o vaso e derrama o perfume sobre a cabeça de Jesus. Era costume judaico o convidado ser recebido com todas as honras pelo anfitrião. Uma delas seria ungir a cabeça com óleo perfumado e especiarias (p. ex. Sl 23), a fim de que o convidado se sentisse repousado e fresco. Não sabemos se Simão procedeu desta forma para com Jesus, a verdade é que no texto é relatada a ação da mulher honrando a Jesus com o melhor e mais caro dos perfumes.

A reação das pessoas “mereceu” indignação e murmuração. Desperdício e ajuda aos pobres foram os argumentos. Jesus esclarece e defende a boa obra da mulher. Ele vê para além das aparentes boas intenções destes homens que não passam de desculpas, ele vê o seu coração e sabe que as críticas vinham de uma motivação errada. A mulher “fez o que pôde” (v.8) indicando que ela agiu de acordo com o seu coração, cheio de gratidão e adoração. Segundo Mathews, Deus julga as ações mediante os motivos que as geraram.

É interessante como o evangelista não está preocupado em nomear os intervenientes destes acontecimentos, a mulher e os que murmuram contra ela. Provavelmente o evangelista não queria que pensássemos nas pessoas e nas suas motivações, mas que olhássemos unicamente para as suas ações, fruto do seu coração, para que os leitores não fizessem juízos de valor. Refiro ainda o contraste que existe entre a mulher e os que murmuravam contra ela. A mulher agiu unicamente, sem proferir uma única palavra, ela nem se defendeu quando acusada. Os murmuradores fizeram um discurso politicamente correto, não agiram, e unicamente atacaram aquela que demonstrava claramente as motivações do seu coração.

Jesus aponta para um significado “escondido” que está na ação da mulher. A missão de Jesus na Terra, a entrega do Seu corpo na cruz, a Sua morte, a unção do Seu corpo. A ação da mulher e a recordação que se fará dela, indicada no verso 9, leva-nos a refletir no significado mais profundo. A unção da mulher lembra o costume judaico descrito no AT em que as pessoas que tinham sido escolhidas/separadas para cumprir uma missão específica de Deus, eram ungidas, nomeadamente reis (p. ex. 1 Sm 16:13; 1 Rs 1:39), sacerdotes (Ex 30:30; Lv 8:12) e profetas (1 Rs 19:16). É importante pensarmos a altura que eles estavam a viver, diz-nos o texto que faltavam dois dias para a celebração da Páscoa. A festa mais importante do calendário judaico comemorava a libertação do povo da escravidão do Egipto. Existia um significado profético na ação da mulher. A obra que Jesus veio realizar, a de ser O Cristo, O Ungido de Deus, O Messias prometido do VT. O que era há muito esperado pelo povo de Israel, o Redentor e Salvador, o líder do povo foi ungido por uma mulher, que entregou o melhor que tinha para honrar O Rei, O Profeta, O Sacerdote.

Que privilégio teve esta mulher de ser defendida, amada, exaltada, e tida como exemplo para todos nós, pela sua devoção e amor ao Ungido de Deus. Ela entregou o melhor de si mesma a Jesus, e Jesus doou-se a si mesmo por esta mulher. E tu? Tens dado o que podes a Deus? Agradeces diariamente a preciosidade da Sua entrega? Da Sua obra por amor a ti? Ou será que és aquele que dá desculpas para não dar o teu melhor ao Rei dos Reis?

Inês Gandaio

As relações pessoais de Jesus - Ezequiel Julião

4ª - O que O motivava a relacionar-se

Numa sociedade em que os relacionamentos eram pautados pela pureza da raça, a situação económica, as profissões e até mesmo o aspecto social era levado em conta, encontramos em Jesus uma prática bem diferente no que toca aos seus relacionamentos, sendo mesmo considerado errado e fora dos parâmetros. A grande pergunta que precisamos responder para entender melhor a abordagem de Jesus, é: Quais eram as suas motivações para relacionar-se com as pessoas que ele encontrava ao longo da sua caminhada ministerial?

Para responder, olharemos para algumas narrativas bíblicas que nos apresentam encontros de Jesus com pessoas, e como ele intencionalmente conduz todo processo de estabelecimento desses relacionamentos, com o propósito de alcançar vilas e cidades, onde o Reino de Deus pudesse ser pregado.

O Amor como Motivação

Um primeiro traço, que se apresenta como elemento motivador para os relacionamentos estabelecidos por Jesus com as pessoas que ele encontrava, sem duvida era o amor. Se por um lado seu amor era logo manifesto e recebido pela pessoa que com ele privava, também era extensível a outros, mostrando outro tipo de motivação. Mas vamos por partes.
Quando lemos os evangelhos e mesmo as cartas dos apóstolos, vemos com clareza como o amor demonstrado por Jesus era a motivação e não os padrões ditados pela sociedade do seu tempo. Um primeiro encontro que queremos analisar é o de Jesus com a mulher samaritana que vai ao poço buscar água, narrado em Jo 4.1:42.

Algumas coisas nos chamam atenção. Para os judeus os samaritanos deviam ser evitados no que diz respeito a relacionamentos. Porém, para Jesus não era assim. Mesmo sabendo do passado daquela mulher, do qual podemos inferir, que nem pelos seus conterrâneos era bem aceite e talvez por essa razão ela vai ao poço a uma hora em que parece evitar o encontro com os seus conterrâneos (por volta do meio dia). Jesus não deixa de olhar para ela com o grande propósito a que veio ao mundo: o amor de Deus para com o ser humano, a quem veio salvar.

Uma outra narrativa está em Lc 8.26:39, onde Jesus tem um encontro com um homem endemoninhado. Resumindo, o texto nos diz que os demónios pediram para entrar numa grande manada de porcos que por ali passava. O ponto principal para nós aqui é que Jesus, por amor ao homem que há muito sofria, não olhou a matemática que os habitantes daquela cidade fizeram, valorizando mais os 2000 porcos em vez da vida de um homem. Pelo contrário, por amor a uma vida, os porcos não foram poupados.

A Urgência em anunciar o Reino de Deus

Nos dois casos que mencionamos, também vemos a preocupação que ele demonstra com aqueles que não conhecem o evangelho. No caso do homem endemoninhado, depois de estar liberto da legião de demónios, ele tem o desejo de seguir a Jesus. Jesus, porém, tinha em vista o alcance de toda aquela terra e como ele não podia permanecer ali, é a este homem a quem ele confia o anuncio do evangelho do Reino, e por isso não permite que ele o siga.

A mulher samaritana de igual modo, é enviada como missionária para as pessoas da cidade de Sicar. Aquela que era rejeitada, e que evitava o contacto com as pessoas da sua cidade, agora é a que apresenta o Messias prometido e esperado. Tudo isso foi possível porque Jesus olhou para aquela que, aos olhos humanos, nada poderia oferecer às pessoas daquela cidade, mas que, para ele, era o veículo ideal para a proclamação do Reino de Deus.

Jesus relacionou-se com as pessoas, por amor e para que o Reino fosse anunciado. Façamos nós o mesmo. 

Ezequiel Julião