quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O discipulado de Jesus nos leva a olhar para o outro (intencionalidade, discipulado, amizade, igreja, serviço, evangelização) - Diné Lota

Uma das principais marcas de Jesus na humanidade foi a sua preocupação com o outro, ou, como Jesus mesmo chamava, o próximo. Seu altruísmo é tamanho que pode ser visto no seu ato salvífico na cruz, uma vez que Ele livremente se entregou para morrer em sacrifício pelos pecados da humanidade, em lugar dos humanos. Por isso se diz que Jesus, e só Jesus, salva o homem do seu pecado e da consequência desse pecado (que não vem a ser objetivo do nosso estudo, mas, para que o leitor não fique curioso, trata-se do tão famigerado inferno).

Não seria de se espantar que Jesus, no discipulado que fez com os seus amigos, que ficaram conhecidos como discípulos, os ensinou a fazer o que fazia: preocupar-se com os outros.

Uma das características que vemos do discipulado de Jesus é a sua intencionalidade. Tudo o que Jesus fez para com os outros tinha motivações internas e intenções (todas boas, uma vez que este autor crê que Jesus é santo e puro).

Uma das passagens em que se pode notar essa intencionalidade é a de Mateus 14, em que Jesus “ordena” a seus discípulos que entrassem no barco e manda que eles atravessassem o mar da Galileia, à noite. No meio da travessia, o barco era açoitado pelas ondas e Jesus aparece como um fantasma andando por sobre as águas. Com certeza houve intenção da parte de Jesus em enviar os doze para aquela vivência, para que eles pudessem ver e perceber a divindade de Jesus.

Outra passagem em que podemos perceber a intencionalidade de Jesus é a que narra a passagem de Jesus por Samaria e o seu encontro com a mulher samaritana à beira do poço (João 4). Há intenção da parte de Jesus para com seus discípulos de lhes ensinar sobre cura, redenção, perdão e não acepção de pessoas, mas também para com a mulher na conversa que Jesus tem com ela.

O próprio discipulado que Jesus realizou com os doze e com outros que o acompanhavam (textos como os de Lucas 10 nos mostra isso) tem a ver com o preocupar-se com o outro. Isso fica muito claro na ordem de Jesus expressa em Mateus 28:18-20. Esse texto é conhecido como a “Grande Comissão”, ou o comissionamento de Jesus à sua igreja espalhada pela terra (nós inclusos). Nele, uma das grandes ordens é fazer discípulos, ou seja, investir tempo em alguém, para que esse alguém cresça como um cristão forte e maduro que possa discipular outros cristãos.

Uma das belezas do discipulado de Jesus é que ele não se coloca num pedestal e obriga seus discípulos a adorá-lo. A adoração é uma consequência da amizade que Jesus constrói conosco. Ele mesmo disse isso e nos chamou de amigos, nos dignificou com essa honra. João deixou isso narrado no capítulo 15 do evangelho que escreveu. O conceito de amizade em Jesus é o de compartilhar uma vida, o de andar junto, de ajudar o próximo, corrigi-lo, amá-lo... como Jesus amou.

A partir do ponto em que nos tornamos amigos de Jesus, e Ele reformula o nosso conceito de amizade, passamos a enxergar a amizade de outra forma, com os olhos de Jesus, olhando o outro, como um ser integral, tão necessitado da graça de Jesus quanto eu.

Foi para essa finalidade que Jesus criou a igreja, um corpo dinâmico, vivo, o seu corpo, para que pudéssemos nutrir amizades em Jesus, ajudar pessoas em Jesus e por causa de Jesus, adorar a Jesus com outras pessoas, ajudar o corpo a se desenvolver como corpo vivo que é. Arrisco a dizer que Jesus criou a igreja mais por nossa causa do que por ele. Nós precisamos da igreja, ele não. Jesus é pleno! Não tem necessidade de nada. Cria a igreja para que nós pudéssemos ter a vivência do outro nele e por ele, orientados por ele, na sua força. A esse olhar para o outro e preocupar-se com o outro podemos dar o nome de serviço. Seria uma boa palavra que resumiria um dos objetivos da igreja.

Num texto com a formatação como esta, não é possível explorar os matizes do assunto. Apenas os pincelamos para que o leitor fique curioso e reflexivo sobre os temas abordados. Entretanto, ainda falta um – evangelização.

Na verdade, não falta, ele está em cada um dos que foi abordado acima. Evangelizar é levar a Boa Notícia de que Jesus é aquele único que nos salva (do nosso pecado e sua consequência). Olhemos para Jesus! Como ele fazia isso? Bem, ele evangelizava pregando, é verdade, mas também discipulando, comendo uma boa refeição com os seus amigos, num passeio pelo jardim, numa viagem até uma cidade próxima, numa cura de alguém, até mesmo quando seus amigos morriam. A preocupação de Jesus com a salvação da humanidade não estava demonstrada em alguns atos ou palavras, mas na sua vida por inteiro, na sua forma de viver e lidar com o outro. Jesus faz isso com maestria, até hoje!

O discipulado de Jesus nos leva a olhar para o outro da mesma forma que ele olha.

Diné Lota

A inclusão dos mais novos no ministério pessoal e particular dos pastores - Teotónio Cavaco

No artigo anterior, foi possível observar que Jesus inclui os mais novos como parte integrante do seu ministério pessoal, dotado de um sentido missiológico que não pode passar despercebido a todo o estudante honesto das Escrituras. Se tal estratégia acompanhou o Modus operandi do Mestre, como podem os pastores de hoje não adotar tal medida para os seus próprios ministérios?

Há três grandes declaracões de Jesus que devem levar-nos a avaliar se essa valorização está presente nos ministérios particulares dos pastores dos nossos dias:

1) Ao nível da visão do reino. Em Marcos 10.14, o Mestre afirmou: “...dos tais é o reino dos céus”. Outras traduções optam por “o reino dos céus é deles”. A passagem bíblica mostra o interesse de Jesus em abençoar os mais novos e a reação impeditiva dos discípulos, o que levou o Mestre a revelar um sentimento de indignação pela atitude deles (não são muitas as vezes que Jesus se mostra indignado). Quando Jesus faz essa afirmação, Ele alarga a visão do reino aos mais pequenos e diz que esse reino é próprio delas. Em Mateus, Ele chega a afirmar que a matriz para entrar no reino dos céus é a própria criança e o padrão para ser-se grande no reino ajusta-se à humildade que está presente na criança. Isso significa que nós precisamos de dedicar atenção e cuidado aqueles que servem de matriz ao reino e o classificam.

2) Ao nível da missão do reino. Em Mateus 18.14, O Mestre afirmou: “...não é vontade de vosso Pai Celeste que pereça um só destes pequeninos”. Que afirmação surpreendente! Jesus está a dizer que é da vontade intrínseca do Seu ser que nem um só pequenino se perca. Pedro também repetiu o mesmo sentido de missão quando escreve na sua Segunda Carta: “...não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pedro 3.9). Ao observarmos com cuidado o texto de Mateus 18, descobrimos que Jesus deixou de usar a palavra “criança”, referida nos versículos 2 a 5, quando fala da visão do reino, e passou a usar a palavra “pequeninos”, referida nos versículos 6, 10 e 14, que no original é a palavra “mikros”, indicando um ser pequeno que também está incluído na missão que pertence ao reino. Isso significa que faz parte da missão dos pastores o cuidado especial por aqueles pequeninos que “crêem em Mim (Jesus)” (v.6).

3) Ao nível do rebanho que caracteriza o reino. Em João 20.21, O Mestre afirmou: “apascenta os meus cordeiros”. Esta ordem tem-me incomodado ao longo dos últimos 35 anos de ministério. É uma ordem igualmente declarativa da missão tão igual quanto Mateus 28.19-20 ou Marcos 16.15, apenas com uma ligeira diferença, pois foi dita a um servo isolado. É uma ordem dada particularmente a Pedro, o mesmo apóstolo que haveria de ser “cabeça de cartaz” das cenas divinas que viriam a palco nos primeiros episódios da história da igreja de Jesus, narradas por Lucas em Actos. Este é o apóstolo que tomou a dianteira da liderança apostólica por uns tempos e que apesar dos sinais evidentes de que a salvação era para todos, precisou de uma visão especial, narrada em Actos 10, para alargar-lhe os horizontes de que os estrangeiros e os mais novos são parte do rebanho!

Poder-se-á dizer que ainda hoje o preconceito existe? Se o rebanho entregue aos seus servos para ser pastoreado inclui os mais novos, não será razão suficiente que os pastores ministrem a todo o rebanho, incluindo os cordeiros?

Teotónio Cavaco

O Reino de Deus nas Parábolas de Jesus - O credor incompassivo - Alberto Carneiro

A parábola do credor incompassivo (Mateus 18:23-35) é um daqueles textos que merece ser lido e relido várias vezes ao ano, quer na Igreja, quer individualmente. O tema central da parábola é, como todos os leitores da Bíblia sabem, o perdão. Porque é que o Senhor Jesus sentiu necessidade de comparar o Reino dos Céus a esta história e a abordar este tema?

A história é muito simples e resume-se facilmente. Um homem que devia uma fortuna ao seu rei (desconhece-se como é que essa dívida foi constituída) e a quem lhe é pedido contas, não tendo como pagar, ouve uma decisão dura para si, para a sua família e a sua fazenda: todos e tudo fosse vendido para que o rei pudesse recuperar a dívida ou, pelo menos, uma parte dela. Perante tal sentença o devedor prostrou-se e pediu clemência ao seu senhor. Cumprida a sentença teria a sua vida e a dos seus completamente arruinada e nunca mais seria ninguém na vida.

Perante tal atitude, o rei perdoa-lhe a enorme dívida, tendo o texto um pormenor de extrema importância. Diz Mateus na sua narrativa que o rei foi “movido de íntima compaixão” (18:27). Soltou-o não mais lhe exigindo o pagamento da dívida. Poderíamos dizer em nome do servo: Que alívio!

Logo após este servo encontra um conservo que tinha para com ele uma pequena dívida. Como o instasse a pagar, o conservo arroja-se aos seus pés e pede-lhe que lhe dê algum tempo e tudo seria pago. O credor não aceita e encerra o conservo na prisão, coisa que caiu mal a todos quantos acompanharam tal procedimento e, tão incomodados ficaram que o fizeram saber ao seu senhor.

E é aqui que a parábola pega directamente connosco e com os nossos procedimentos. O texto diz-nos que o senhor chamou o seu servo e condena-o liminarmente ao pagamento integral da dívida.

O Senhor Jesus ensinou-nos que o reino de DEUS é semelhante à história que é contada nesta parábola. O que é que isto quer dizer?

Exercer o perdão é algo que está implícito à vida do cristão, em primeiro. Em segundo, que todos nós somos devedores para com DEUS o Pai, para com o Jesus, o Filho, e para com o Espírito Santo. Para com o Pai porque somos criaturas Suas feitos à Sua imagem e semelhança e nós pecamos contra Ele; para com o Filho porque foi Ele que derramou o Seu sangue para nos salvar, nos justificar, nos reconciliar com o Pai, pagando o preço da nossa enorme dívida; e para com o Espírito porque é Ele que nos convence do pecado, da justiça, do juízo e, depois de tudo isto, nos dá o penhor da nossa salvação porque Ele é o Consolador que nos ampara e acompanha em todos os momentos.

Este tema foi abordado pelo Senhor para que não nos esqueçamos que também nós somos devedores, e só entramos no Reino dos Céus porque DEUS nos perdoou primeiro. Como não havemos nós de aceitar o perdão e perdoar também?

Alberto Carneiro

domingo, 5 de agosto de 2018

Lágrimas num cemitério - Daniel Lopes

"Jesus chorou". João 11.35

Normalmente, aqueles que estudam e leem a Bíblia sabem e lembram-se que João 11 relata a história onde o Senhor Jesus ressuscitou Lázaro. Aqueles que gostam de decorar versículos da Bíblia, certamente também saberão que é em João 11 que se encontra um dos versículos mais pequeno de toda a Bíblia: “Jesus chorou.” Este é um dos mais citados nos concursos para ver quem consegue dizer mais versículos da Bíblia. 

O que muitos talvez não saibam é que este versículo contém uma palavra exclusiva em todo o Novo Testamento. A palavra que temos traduzida por chorar, no grego original é δακρυω. O seu significado literal é derramar lágrimas. O termo, provavelmente, sugere um momento de silêncio ou quietude, um choro tranquilo que impacta os que estavam à Sua volta.

No capítulo 11 do Evangelho de João, nos versículos 33 a 35, lemos que: “Jesus, vendo-a chorar (referindo-se a Maria), e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! Jesus chorou”. Jesus estava comovido pela dor humana. Ele chorou com Maria, irmã do falecido Lázaro. Provavelmente, esta é uma das cenas mais dolorosas do ministério de Jesus até ali. Jesus perante o salário do pecado chorou!

Jesus estava num cemitério. O Seu bom amigo Lázaro estava morto. A Bíblia faz questão de afirmar que Jesus derramou lágrimas!

Porque terá Jesus chorado?

Jon Bloom, no site desiringGod.org, desenvolve sobre os motivos que terão levado Jesus a chorar, conforme descrito nesta passagem. Ali ele enumera quatro razões interessantes:
1) Compaixão pelos que sofrem;
2) A calamidade que resulta do pecado;
3) Antevisão do custo da nossa redenção;
4) O início da perseguição que levaria à Sua morte.

A verdade é que aqueles que estavam ali presentes entenderam que o choro de Jesus era uma resposta natural do Seu amor por Lázaro - João 11.36: “Então os judeus disseram: Vede como o amava.” Nesta declaração temos a confirmação que Jesus realmente chorou e que Ele o fez de uma forma visível e marcante.

Tento visualizar, por trás do δακρυω, o meu Jesus a chorar. Compreendo que há algo de espiritual por trás das Suas lágrimas. Há amor, há compaixão. Há carinho por Lázaro, mas também por Marta e Maria. Jesus chorou em simpatia com aquele sofrimento familiar.

Aprendo, ao olhar para Cristo, que não é errado chorar em funerais. Talvez seja errado a forma como choramos e o motivo porque choramos. Mas chorar em tempos de luto é normal. É humano. É cristão. Chorar em compaixão com os que sofrem não é motivo de vergonha.

Nós também podemos chorar quando um familiar ou um amigo morre, porque Jesus chorou. Nós também podemos chorar no túmulo de todos aqueles que amamos, sem nos sentirmos culpados de incredulidade, ou acerca da esperança da ressurreição, porque Jesus chorou.

Na minha vida, já participei em vários cortejos fúnebres. Já perdi alguns familiares, amigos e conhecidos. Nem todos os funerais foram iguais. Alguns foram funerais tranquilos. Cantou-se e celebrou-se a esperança que temos em Jesus. Noutros, porém, houve despedidas onde o desespero e o histerismo era tanto que me chegou a incomodar (infelizmente até em alguns funerais de crentes). Será que faz sentido? 

Olhemos para o choro tranquilo de Jesus. Contemplemos a espiritualidade por trás dele. 

Daniel Lopes

O serviço como uma expressão de amor - Miguel Jerónimo

Uma das facetas mais essenciais de um bom líder cristão é o de ser um reflexo do coração de Deus para com o ser humano e poucas coisas demonstram mais o nosso amor por alguém do que servi-la.

Encontramos nos Evangelhos diversos exemplos de como atos de serviço eram entendidos por Jesus como atos de demonstração de amor, sendo o mais marcante provavelmente o da mulher em casa de Simão, que lava os pés de Jesus com as suas lágrimas e os enxuga com os seus cabelos (Lucas 7:36-50). Jesus estabelece ali uma correlação entre o serviço que ela Lhe prestava (lavar os pés aos convidados para um banquete era um serviço habitual) e o muito amor que ela Lhe tinha (vs.47b).

Ao longo do Seu ministério Jesus serviu todos com quem se relacionou e nunca o fez como uma tentativa de Se autopromover (em alguns milagres pedia mesmo que se guardasse segredo) mas sim para demonstrar o Seu amor incondicional.

O apóstolo Paulo usa mais tarde esse argumento ao apelar aos cristãos de Filipo que “tenham os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que por natureza era Deus, não quis agarrar-se a esse direito de ser igual a Deus. Pelo contrário, privou-se do que era seu e tomou a condição de escravo” (Filipenses 2:5-7 - BPT). Precisamos de entender que um Messias que demonstra o Seu amor servindo os outros era tão escandaloso naquela época como o é agora, mas era exatamente essa associação de liderança, serviço e amor que Jesus fazia e que Paulo agora ressaltava.

O serviço tem ainda uma característica que o diferencia de muitas outras demonstrações de amor: ele é essencialmente prático! Ninguém fica indiferente quando o servimos sem segundas intenções, quando servimos sem exigir nenhum pagamento ou recompensa, nem mesmo esperando um elogio. E quando levamos esta atitude mais longe e servimos aqueles que, perante a sociedade, estão abaixo de nós (pela sua situação financeira, estrato social ou raça), então o testemunho torna-se ainda mais forte.

Por fim, importa ainda ressaltar que o serviço não só é uma expressão de amor mas é ele mesmo motivado pelo amor. Veja-se a história da atarefada Marta, em Lucas 10:39-41, que tinha o seu foco dividido entre Jesus e a falta de ocupação da sua irmã! A crítica que Jesus lhe fez não foi por ela O estar a servir, mas para Jesus o serviço tinha tanto de ação quanto de atitude, podemos até dizer que a Sua ação era um reflexo da Sua atitude interior e não apenas uma demonstração pública, coisa que Ele criticou por exemplo na atitude dos fariseus[1]. Assim, Ele tinha prazer no serviço de Marta, apenas se fosse com o foco exclusivo Nele e não por comparação (com a irmã) ou como demonstração exterior de compromisso ou espiritualidade. Isso não mudou, e permanece o padrão para nós hoje, principalmente para nós líderes!

Ser motivados por amor e demonstrar amor aqueles a quem Deus ama, o que mais pode um líder desejar?

Miguel Jerónimo



[1] FLEMING, Kenneth C. Ele humilhou-se a Si mesmo. São Paulo: Editora Vida, 1994.

A Importância da mesa no ministério de Jesus - Perdão, Graça e Restauração - António Bento

Uma mulher e um homem. Ela, uma perfeita desconhecida, ele, um imperfeito conhecido. Ela, uma pecadora, ele, um discípulo honrado do Senhor Jesus. Ela, anónima, ele, o que viria a ser conhecido por Apóstolo Pedro. Que contraste aparentemente gritante. Mas a história, que é feita de contrastes exteriores, mostra que, interiormente, ambos careciam do mesmo.

Ela, impura e por todos rejeitada, como se de uma doença infeciosa se tratasse, contra tudo e contra todos, entrou de rompante pela casa de um fariseu, para a qual não havia sido convidada, procurando acercar-se da mesa preparada, onde sabia que Jesus lhe podia outorgar paz (Lc 7.36-50). Ele, cansado e frustrado, andara na faina toda a noite sem nada conseguir pescar, mas “empurrado” por uma repentina pesca milagrosa, lançou-se ao mar, para encontrar, à mesa improvisada, o mestre que sabia que o podia aliviar (Jo 21.1-25).

Aquela mulher, que não era sequer convidada, confrontando a todos, tornou-se anfitriã, lavando os pés de Jesus com lágrimas, enxugando-os com os cabelos, beijando-os e derramando sobre Jesus o melhor perfume, esbanjando com Ele a sua devoção. O fariseu, suposto anfitrião, nem queria crer no que via, e arrazoava consigo mesmo que aquele homem nada tinha de profeta, pois, de outro modo, facilmente saberia que estava na presença de uma pária. A este último Jesus, parlamentarmente, mostrou um princípio simples: A quem Ele muito perdoa, muito O ama. E foi muito o amor que aquela mulher Lhe demonstrou.

Quanto ao homem, que foi convidado para uma refeição, numa mesa à beira-mar plantada, esse viu-se confrontado pelo Mestre dos mestres. O que se esperava ser uma coroação de um “príncipe sucessor”, afinal transformou-se numa entrevista dolorosa, que deixa um Apóstolo em profunda consternação. Junto ao fogo provido pelo seu Senhor, que muito o amava, triplamente teve de afirmar o seu amor, na esperança de quebrar a barreira da tripla negação praticada noutra fogueira.

A ambos, mulher pecadora e discípulo “honrado”, Jesus estendeu o que eles mais requeriam. A ela, lhe disse “os teus pecados te são perdoados (...) A tua fé te salvou; vai-te em paz.” (Lc 7.48,50). A ele lhe disse “Apascenta as minhas ovelhas.” (Jo 21.17). Ambos pecaram, ambos careciam de perdão, ambos beneficiaram de graça e ambos foram restaurados. É assim que Jesus atua à mesa, repartindo uma refeição, removendo a culpa e a vergonha e estendendo a graça maravilhosa do nosso Deus.

Jesus mostra-nos, deste modo cortante, que se olhamos os outros de cima para baixo, amamos pouco, porque nada entendemos acerca da natureza dos nossos próprios pecados, nem da graça de Jesus, mas se olharmos de baixo para cima, reconhecendo a nossa própria miséria pecadora, estaremos preparados para amar, estendo o amor e a graça de Jesus aos pecadores que nos rodeiam.

À mesa, somos convidados a expressar perdão onde ele for necessário, a estender reconciliação onde ela for urgente, a criar o espaço para que corações feridos se curem, corações deprimidos e frustrados adquiram uma nova visão e corações divididos e afastados encontrem a paz de Deus. À volta da mesa somos convidados pelo Mestre a oferecermos graça, não a nossa, mas a de Jesus, abrindo a porta para que pessoas perdidas possam ser seduzidas por uma vida melhor, numa nova sociedade, de graça, inclusão, restauração e transformação.

António Bento

O Sermão Missionário - Segundo Discurso Didático de Jesus - Alexandre Glória

No capítulo 10 de Mateus, encontramos o 2º discurso didático de Jesus, chamado do sermão missionário. Alguns intitulam-no como a pequena comissão, em contraponto com a grande comissão de Mateus 28:18-20. Enquanto neste sermão Jesus envia 12 discípulos a pregar o Reino dos Céus, às ovelhas perdidas da casa de Israel, na grande comissão, envia todos os seus discípulos para irem anunciar o Evangelho à todas as nações.

No Seu 1º discurso didático (Mateus 5-7), Jesus centraliza a ética do Reino dos Céus no que Ele diz: “Ouviste que foi dito aos antigos, eu porém vos digo”.  Com esta declaração, estava a manifestar toda a Sua autoridade, e a centralizar a ética do Reino dos Céus, na Lei de Deus que Ele veio cumprir.

Neste seu 2º discurso, (Mateus 10:1-42), Jesus manifesta, mais uma vez, a sua autoridade divina ao chamar para junto de si 12 discípulos, dando-lhes poder sobre as hostes celestiais. (Mateus 10:1).

O alvo deste sermão foi enviar os 12 para pregar às ovelhas perdidas de Israel, a iminente chegada do Reino dos Céus. (Mateus 10:6-7) O objetivo não foi enviar a pregar o evangelho, porque a consumação da remissão dos pecados ainda não tinha ocorrido. Esta só veio acontecer na cruz. 

A razão por que Jesus está a enviar os seus discípulos a anunciar a proximidade da chegada do Reino dos Céus, às ovelhas perdidas de Israel e não a todos os povos, está relacionada com o facto dos Israelitas estarem à espera da vinda do Messias, e por isso perceberem melhor a mensagem profética. Antes de enviar os discípulos a anunciar ao mundo o evangelho, que ainda não estava consumado na crucificação, era necessário preparar terreno, e dar oportunidade começarem a experimentar o que significa ser missionário, e os perigos que iriam enfrentar.

Segundo Fritz Rienecker, Jesus dá as seguintes incumbências missionárias aos seus discípulos:
1. Ir somente às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 10:6);
2. Pregar a proximidade do Reino dos Céus (Mateus 10:7);
3. Curar enfermos (Mateus 10:8);
4. Fazê-lo de graça (Mateus 10:8b);
5. Não fazer preparativos de viagem (Mateus 10:9-10);
6. Escolher as residências como seus centros missionários (Mateus 10:11);
7. Não sendo recebidos, sacudir o pó dos seus pés (Mateus 10:12-15).

Após dar estas tarefas, Jesus adverte para as dificuldades que iriam encontrar:  
1. Encontrar pessoas que são lobos que lhes querem devorar. (Mateus 10:16);
2. Enfrentar tribunais (Mateus 10:17);
3. Enfrentar reis e governadores, para serem testemunha de Jesus (Mateus 10:18-20);
4. Enfrentar oposição familiar (Mateus 10:21-22).

Apesar disso, Jesus anima os discípulos, afirmando que:

1. Ele próprio enfrenta as mesmas dificuldades.
“O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?” (Mateus 10:24-25)

2. A mensagem cristã proclamada será conhecida pelo mundo todo.
“Portanto, não os temais; pois nada há encoberto que não venha a ser revelado; nem oculto que não venha a ser conhecido.” (Mateus 10:26)

3. Podem matar o corpo, mas não a alma.
“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.” (Mateus 10:28)

4.O Pai dos Céus cuida dos enviados
“Não se vendem dois pardais por uma pequena moeda? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais” (Mateus 10:29)

5. Quem confessa a Jesus será recompensado pelo Pai.
“Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 10: 32-33)

6. Quem traz a espada é Jesus e não nós.
“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mateus 10:34)

7. Quem recebe a mensagem dos enviados de Deus, recebe o próprio Jesus.
“Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” (Mateus 10: 40)

No 2º discurso didático de Jesus, relatado por Mateus, vemos uma primeira chamada, como uma preparação para a grande comissão de ir por todo o mundo anunciar o evangelho da salvação, que Jesus faz após a sua morte e ressurreição. Este sermão ensina o que devemos fazer, os perigos que encontramos e as promessas que temos quando abraçamos a obra missionária. 

Alexandre Glória